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Há 5 anos, Brasil aplicava primeiras doses de vacina contra a covid-19

Em poucos meses de imunização, o número de mortes pela doença despencou.

F. Silva
Por: F. Silva Fonte: Agência Brasil
17/01/2026 às 09h50 Atualizada em 17/01/2026 às 09h54
Há 5 anos, Brasil aplicava primeiras doses de vacina contra a covid-19
© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Há cinco anos, em 17 de janeiro de 2021, o Brasil dava um passo decisivo para sair de um dos períodos mais traumáticos de sua história recente. Naquele domingo, horas após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19, a enfermeira Mônica Calazans tornou-se a primeira brasileira imunizada contra a doença.

Mônica foi escolhida por ter participado dos ensaios clínicos da CoronaVac, realizados no final de 2020 para comprovar a segurança e a eficácia do imunizante. À época, ela trabalhava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, referência nacional no atendimento a doenças infectocontagiosas e que recebeu mais de 40 mil pacientes durante a pandemia.

De plantão naquele domingo, a enfermeira foi chamada às pressas para comparecer à cerimônia que aguardava a decisão da Anvisa. Ao saber que seria a primeira vacinada do país, não conteve a emoção.
“Eu chorava muito, porque estávamos vivendo um momento traumatizante. Meu irmão estava com covid naquela época. Mas também chorei de alegria, porque a ciência estava dando um passo importante para acabar com aquela tragédia”, relembra.
Segundo ela, o gesto do punho cerrado ao receber a vacina simbolizava “esperança e vitória”, uma mensagem de que o Brasil poderia superar a crise sanitária.

O início da campanha nacional

A vacinação em massa começou oficialmente no dia seguinte, 18 de janeiro de 2021, após a distribuição de um primeiro lote de seis milhões de doses da CoronaVac, produzidas na China e importadas pelo Instituto Butantan, que posteriormente passou a processar o imunizante no Brasil com insumos da empresa Sinovac.

Poucos dias depois, em 23 de janeiro, a campanha ganhou reforço com a chegada das primeiras duas milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca, inicialmente importadas da Índia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que gradualmente incorporou a tecnologia e passou a produzir o imunizante em território nacional.

Diante da escassez inicial de doses, o plano de imunização priorizou os grupos mais vulneráveis: profissionais de saúde da linha de frente, idosos, pessoas com deficiência que viviam em instituições e povos indígenas. O cenário era especialmente grave, já que o país enfrentava o pico da variante Gama, mais agressiva e letal do que as anteriores.

Impacto da vacina e vidas salvas

A imunização avançou lentamente nos primeiros meses. Em cidades como o Rio de Janeiro, pessoas entre 60 e 70 anos só começaram a receber a vacina entre março e abril de 2021. Ainda assim, os efeitos positivos não demoraram a aparecer.

Dados do Observatório Covid-19 Brasil mostram que, a partir de abril daquele ano, as hospitalizações e mortes entre idosos começaram a cair de forma acentuada. Pesquisadores estimam que, apenas nos primeiros sete meses da campanha, cerca de 165 mil hospitalizações e 58 mil mortes entre idosos foram evitadas.

Com o aumento da produção nacional pelo Butantan e pela Fiocruz e a chegada de vacinas adquiridas de empresas privadas, o ritmo da campanha acelerou. Em um ano, o Brasil aplicou 339 milhões de doses, alcançando 84% da população. Especialistas calculam que a vacinação preveniu 74% dos casos graves e 82% das mortes esperadas, poupando mais de 300 mil vidas.

O custo do atraso

Apesar dos resultados, estudos apontam que o início tardio da vacinação teve consequências graves. O próprio Observatório Covid-19 Brasil estima que 104 mil hospitalizações e 47 mil mortes entre idosos poderiam ter sido evitadas se a campanha tivesse começado mais cedo.

Para Paola Falceta, vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), esses números têm rosto e nome. Sua mãe morreu em janeiro de 2021, antes de ter acesso à vacina.
“A maioria das pessoas queria se vacinar. Muitos morreram sem sequer ter a chance, porque o governo decidiu não comprar ou negociar todas as vacinas disponíveis”, afirma.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais reforça essa avaliação: se o Brasil tivesse iniciado a vacinação 40 dias antes, na mesma data do Reino Unido, com maior oferta de doses e medidas de proteção, até 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas — mais da metade das cerca de 700 mil vidas perdidas no país.

Responsabilizações e investigações

As conclusões dialogam com o relatório final da CPI da Covid-19, que apontou que o governo federal impôs uma escassez de vacinas, contribuindo para o aumento de casos, mortes e a disseminação de novas variantes. Entre as provas, estavam propostas da Pfizer feitas em agosto de 2020 para fornecimento de 1,5 milhão de doses ainda naquele ano, que não foram respondidas.

A CPI recomendou o indiciamento de 68 pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e ex-ministros da Saúde. O pedido acabou arquivado em 2022, mas, no ano passado, o ministro do STF Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito na Polícia Federal para apurar os fatos.

Cinco anos depois da primeira vacina, o Brasil lembra não apenas de um marco científico e de esperança, mas também das escolhas que custaram vidas — e das histórias que seguem cobrando memória, justiça e responsabilidade.

Da redação.

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