
A morte do influenciador fitness Gabriel Ganley, aos 22 anos, voltou a colocar em evidência um tema pouco discutido fora do universo do fisiculturismo: o uso de insulina por atletas em busca de hipertrofia muscular. Nos primeiros dias após a morte, amigos e pessoas próximas chegaram a levantar a hipótese de uma crise de hipoglicemia associada ao uso hormonal. Posteriormente, foi confirmado que a causa da morte foi uma cardiomiopatia hipertrófica — doença em que o músculo do coração se torna anormalmente espesso e que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes.
Mesmo sem relação direta com a insulina, o caso ampliou o debate sobre os riscos silenciosos envolvidos no uso clandestino de hormônios dentro da cultura fitness.
Meses antes da morte, o próprio Gabriel já havia relatado nas redes sociais episódios de hipoglicemia ligados ao uso de insulina. Em uma das publicações, afirmou que passou mal após uma aplicação, mas conseguiu ser socorrido porque estava acompanhado. O episódio voltou a repercutir entre praticantes de musculação e intensificou discussões sobre como situações consideradas “comuns” dentro do fisiculturismo podem rapidamente evoluir para quadros fatais.
O médico especialista em Medicina do Esporte e professor universitário Francisco Cesar Lins afirma que a insulina jamais deveria ser utilizada por pessoas saudáveis com finalidade estética. Segundo o endocrinologista, a substância possui função vital no organismo e foi desenvolvida para tratar pacientes diabéticos que não produzem insulina adequadamente.
Sem a ação correta do hormônio, o açúcar consumido nos alimentos não consegue entrar nas células para gerar energia. Como consequência, a glicose permanece acumulada no sangue, provocando uma série de complicações ao longo do tempo, como danos nos rins, nervos, visão e coração, além de situações de emergência médica.
De acordo com Francisco Cesar Lins, o uso irregular da substância cresceu dentro do fisiculturismo porque a insulina possui efeito anabólico, facilitando a entrada de glicose e nutrientes nas células musculares e favorecendo o ganho de massa. O problema, segundo ele, é que o mesmo mecanismo pode derrubar drasticamente os níveis de açúcar no sangue, provocando hipoglicemia severa.
O especialista alerta que, em indivíduos saudáveis, o uso da insulina sempre representa risco, principalmente quando associado a dietas restritivas, jejuns prolongados e treinos intensos.
O fisiculturista Vitor Prudente Cardoso, de 21 anos, relata que o uso hormonal se tornou algo comum dentro do meio esportivo. Segundo ele, essa realidade já era percebida desde a adolescência, quando começou a frequentar academias.
Atualmente competindo em eventos como o Muscle Contest Sorocaba, o campeonato Goiânia Natural e competições em Uberaba, Vitor afirma que o uso de insulina costuma ser mais frequente entre atletas profissionais.
Apesar de nunca ter utilizado a substância, ele afirma já ter presenciado episódios de mal-estar relacionados à hipoglicemia dentro do ambiente esportivo. Para o atleta, muitos jovens acabam atraídos pelos resultados físicos exibidos nas redes sociais, enquanto os riscos são minimizados ou ignorados.
Segundo Vitor, existe consciência dentro do meio de que hormônios e outras substâncias “cobram um preço”, mas ainda assim muitos atletas escolhem correr os riscos para alcançar resultados mais rápidos.
Francisco Cesar Lins explica que os sintomas iniciais da hipoglicemia podem parecer simples, mas evoluem rapidamente para situações graves. Em casos severos, a falta de glicose compromete diretamente o funcionamento cerebral, podendo provocar perda de consciência, convulsões e até parada cardíaca em poucos minutos.
Fraqueza intensa
Tontura
Suor frio
Tremores
Taquicardia
Sensação de desmaio
Confusão mental
Perda de coordenação motora
Convulsões
Perda de consciência
O endocrinologista afirma que o risco aumenta quando a insulina é aplicada antes do sono. Segundo ele, uma pessoa acordada consegue perceber os sintomas e corrigir a queda glicêmica ingerindo açúcar ou alimentos ricos em carboidrato. Durante o sono, porém, a hipoglicemia pode se tornar fatal sem que haja tempo de reação.
O médico ressalta ainda que até pacientes diabéticos que necessitam da substância monitoram a glicemia antes de dormir justamente para evitar episódios graves.
Para Francisco Cesar Lins, a busca pelo chamado “corpo perfeito” tem levado jovens a recorrer cada vez mais cedo a hormônios e substâncias sem respaldo científico. Segundo ele, médicos frequentemente recebem pacientes já com complicações instaladas, muitas vezes graves e irreversíveis.
O endocrinologista alerta que episódios prolongados de hipoglicemia podem provocar sequelas neurológicas permanentes, já que o cérebro depende da glicose para sobreviver.
Outro fator que preocupa especialistas é a facilidade de acesso à substância. Diferentemente de muitos medicamentos controlados, a insulina pode ser adquirida sem exigência de receita médica.
Para o médico, combater a banalização do uso hormonal exige participação conjunta de médicos, famílias, escolas, influenciadores digitais e da própria imprensa. Ele defende que informação e senso crítico são as principais ferramentas para impedir que jovens transformem substâncias de alto risco em atalhos estéticos.
Da Redação...