
Entre banners e pilares
A frase estampada no banner oficial chama atenção pelo lirismo:
"Não trazemos seu amor de volta."
A sequência, cuidadosamente construída, tenta unir sensibilidade e obra pública:
"Mas estamos construindo uma ponte até ele."
É publicidade com vocação para premiação. Texto afinado, imagem limpa, promessa simbólica.
O problema é que a ponte real a de concreto armado, contrato administrativo e recursos públicos ainda não chegou.
A terceira ponte sobre o Rio Grande, ligando o bairro Vila Dulce ao bairro Barreirinhas, teve a ordem de serviço assinada em 18 de dezembro de 2024 pelo então prefeito Zito Barbosa.
O contrato previa investimento de R$ 9,7 milhões e prazo de execução de 12 meses. Entrega estimada: dezembro de 2025, porém, já estamos em fevereiro de 2026 - O que aocnteceu mesmo? Ou melhor, não aconteceu, a ponte não foi concluída e consequentemente não foi entregue para o povo.
Em setembro de 2025, durante a fase de concretagem dos pilares, o secretário municipal de Infraestrutura declarou que a expectativa era concluir a obra entre março e abril de 2026 - "Faiu!".
Não houve anúncio formal de aditivo contratual alterando o prazo original. Houve, sim, uma nova previsão pública, já deslocada para além do cronograma pactuado.
- O contrato dizia dezembro de 2025.
- A fala indicava primeiro semestre de 2026.
- O calendário ultrapassou ambos.
Mas observem cidadãos! Tecnicamente, o prazo venceu. Politicamente, a narrativa foi ajustada.

Mesmo com a terceira ponte ainda em execução, o prefeito Otoniel Teixeira anunciou a construção de uma quarta ligação viária, conectando a região da Universidade Federal do Oeste da Bahia ao bairro Antônio Geraldo.
A lógica é conhecida: projeta-se o futuro enquanto o presente ainda está em obras.
Nas redes sociais, a reação veio rápida. Comentários cobrando a entrega da ponte anterior antecederam qualquer debate técnico sobre a nova proposta.
Na ciência política, o fenômeno pode ser descrito como desalinhamento entre expectativa e entrega - Na linguagem popular, chama-se impaciência.
A publicação oficial justificava o projeto com a frase:
"Porque aproximar pessoas também é cuidar da cidade."
A sentença é sensível, de fácil circulação digital. Mas a administração pública opera com outras métricas: execução orçamentária, fiscalização técnica, cumprimento de cronograma.
"A postagem soma curtidas. A obra soma meses".
"O algoritmo responde em segundos. O concreto, em ciclos".
Será que estejamos diante de um modelo de gestão em que o anúncio antecede a entrega como estratégia permanente? Ou será que a comunicação ocupa o espaço da conclusão?
Enquanto reeditei esta crônica, o editor escuta Secos & Molhados. A canção é Sangue Latino, eternizada na voz de Ney Matogrosso, e as frases da administração deveria ser do tipo:
"Os ventos do norte não movem moinhos."
A frase ganha uma inesperada densidade administrativa. Discursos estratégicos, anúncios sucessivos e banners bem diagramados podem soprar em qualquer direção mas não movem cronogramas nem substituem execução física - Outra frase que se adequa ao contexto:
"Rompi tratados, traí os ritos."
Na política contemporânea, romper ritos institucionais virou método. A liturgia da entrega cede lugar à estética do anúncio. Maaas... a letra da música continuar teimando em retratar a triste realidade:
"E o que me importa é não estar vencido."
Talvez aí esteja a filosofia tácita da gestão pública atual: não importa o atraso, importa a narrativa de resistência.
"No palco, a performance é tudo.
Na cidade, não deveria ser".
O prefeito Otoniel Teixeira já completou um ano de gestão. Algumas obras herdadas foram entregues; as estruturantes seguem sob observação pública - ou seja, "em análise......"
"A população não pede lirismo institucional.
Pede execução".
"Não exige metáfora afetiva.
Exige infraestrutura viária".
Realmente, a prefeitura que não traz o amor de volta, deixa no no ar a seguinte pergunta:
"Mas tará a ponte?
- Ou seguiremos todos com nossos caminhos tortos aguardando o próximo anúncio?
Com informações do blog Caso de Política.