
O vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), provocou uma onda de críticas após a divulgação de imagens dos bastidores da produção. O conteúdo apresenta relatos de dificuldades financeiras e de acesso a serviços públicos, com críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Gravado em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, o material foi produzido no contexto da campanha presidencial de 2026. Segundo as informações divulgadas, a publicação ultrapassou 160 milhões de visualizações até a noite de quarta-feira (21).
Imagens que circularam nas redes sociais mostram integrantes da equipe orientando o enquadramento das cenas. Em um dos trechos, profissionais discutem como evitar que uma antena parabólica apareça na gravação de uma residência.
Após o ajuste da câmera, Nikolas aprova o resultado e afirma: “Putz, melhorou mil por cento”. A cena gerou críticas sobre a construção visual da suposta precariedade retratada no vídeo.
A presença de equipamentos profissionais, iluminação e teleprompter também provocou questionamentos sobre a espontaneidade dos depoimentos. No entanto, as orientações de gravação, isoladamente, não comprovam que as falas tenham sido roteirizadas.
Outra controvérsia envolve um participante conhecido como Binha. O deputado federal Pedro Campos (PSB-PE) afirmou que moradores reconheceram o entrevistado e questionaram sua representação no vídeo após relatos de que ele possuiria uma caminhonete Toyota Hilux e uma casa com móveis novos.
Segundo Campos, a esposa do participante, identificada como Aline, teria confirmado que o veículo foi adquirido com recursos do trabalho do marido. O parlamentar também divulgou imagens de uma residência que atribuiu ao entrevistado.
Campos ainda levantou a hipótese de uso de filtros digitais para acentuar a aparência de desgaste físico do homem. Essas alegações, porém, não foram acompanhadas de verificação independente que confirme todas as informações.
A escolha de Luís Eduardo Magalhães como cenário ampliou a discussão. Dias antes, Nikolas havia publicado um vídeo destacando a prosperidade econômica do município, sua produção agrícola e a geração de empregos.
Na gravação posterior, moradores relataram dificuldades financeiras e problemas de acesso a serviços públicos. Críticos apontaram uma contradição entre as duas abordagens, especialmente porque a cidade não teria sido identificada no vídeo sobre o Nordeste.
O município registrou 62,03% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, segundo os dados citados na reportagem original.
Após a repercussão, Nikolas publicou outro vídeo para denunciar supostas ameaças contra Ermínia Souza, uma das mulheres entrevistadas. Ela relatou ter sido abordada em casa e decidido deixar o local por medo.
“Liguei para meu sobrinho me buscar e me levar para a cidade. Só vou voltar depois das eleições”, afirmou a mulher.
O deputado responsabilizou setores da esquerda e defendeu que a participação ocorreu espontaneamente. Até o momento, as informações apresentadas não incluem uma apuração independente que esclareça as circunstâncias das supostas ameaças.
A deputada federal eleita Thabatta Pimenta (PV-RN) criticou a representação da região e associou as melhorias sociais ao governo Lula.
“O Nordeste não é mais isso graças ao governo Lula”, declarou em vídeo publicado nas redes sociais.
Pedro Campos, por sua vez, citou investimentos federais em saúde em Luís Eduardo Magalhães, incluindo uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), uma unidade odontológica móvel e duas ambulâncias.
O parlamentar também mencionou a construção de um hospital de câncer em Barreiras e a instalação de um acelerador linear para radioterapia. Além disso, afirmou que o governo Jair Bolsonaro suspendeu um incentivo de R$ 840 mil destinado à UPA do município, em fevereiro de 2020, sob a justificativa de descumprimento de requisitos federais.
O Instagram retirou a trilha sonora do vídeo, que utilizava uma versão instrumental de “Grão de Areia”, composição de Rubel, Ana Caetano e Tó Brandileone, gravada por Rubel com Xande de Pilares.
Nikolas atribuiu a medida ao cantor Rubel e afirmou que ele teria acionado a Sony Music Brasil para impedir o uso da música. A Meta confirmou que a retirada ocorreu após uma solicitação relacionada a direitos autorais, mas não informou quem fez o pedido.
Xande de Pilares esclareceu que, como intérprete, não tem autoridade para autorizar esse tipo de utilização da obra. Segundo ele, a decisão cabe aos titulares dos direitos autorais.
O caso também chegou ao empresário Elon Musk, proprietário da rede social X. Nikolas agradeceu pela defesa da liberdade de expressão na plataforma e afirmou que o conteúdo continuava disponível na rede.
“Here on X, the content remains untouched and has broken engagement records”, escreveu o deputado. Em tradução livre, a mensagem afirma que o conteúdo permanecia intacto no X e havia batido recordes de engajamento.
Musk respondeu apenas “Congrats!”, que significa “Parabéns!”. A manifestação não abordou as acusações de censura nem esclareceu quem solicitou a retirada da música.
O desempenho do vídeo motivou questionamentos do Sleeping Giants Brasil, que comparou publicações de 30 perfis e identificou números considerados atípicos nos conteúdos de Nikolas.
Segundo o levantamento citado na reportagem original, dez vídeos curtos do deputado somaram 410,5 milhões de visualizações, com mediana de 38,25 milhões por publicação. Os resultados foram comparados aos de celebridades internacionais com bases de seguidores maiores.
O Sleeping Giants Brasil, a organização Artigo 19 e a CTRL+Z encaminharam uma representação ao Ministério Público Eleitoral para investigar uma possível amplificação algorítmica das publicações.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também determinou que a Meta prestasse informações sobre as medidas aplicadas ao perfil do deputado desde agosto. A controvérsia permanece marcada por disputas políticas, questionamentos sobre a produção audiovisual e alegações que ainda dependem de apuração independente.