
A Polícia Federal (PF) concluiu que servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) usaram de forma ilegal um software de espionagem chamado FirstMile para rastrear a localização de alvos específicos durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O escândalo, que atinge figuras do alto escalão do antigo governo, resultou no indiciamento do próprio Bolsonaro e do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), que dirigia a Abin à época dos fatos.
Segundo o relatório da PF, o FirstMile é um sistema desenvolvido pela empresa israelense Cognyte, capaz de explorar falhas estruturais nas redes de telefonia brasileiras para identificar e monitorar celulares, mesmo sem autorização judicial. A ferramenta se conectava a Estações Rádio Base (ERBs) — as antenas de telefonia — simulando ser parte da rede para acessar a localização dos aparelhos conectados.
As investigações apontam que o software foi utilizado para espionar membros do Judiciário, parlamentares, jornalistas, e outros considerados “desafetos” do governo, configurando o maior caso de monitoramento ilegal de cidadãos na história recente do Brasil.
De acordo com análise técnica da PF, o FirstMile explorava uma vulnerabilidade no protocolo SS7, utilizado por redes móveis 2G e 3G. Esse protocolo, considerado obsoleto e pouco seguro, não valida a origem dos pedidos de dados, o que permite a interceptação e rastreamento indevido de informações sensíveis sem o conhecimento dos usuários ou das operadoras.
Em audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), autoridades da PF e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) alertaram sobre os riscos do uso de tecnologias estrangeiras não regulamentadas no país. O Brasil possui cerca de 15 mil prestadoras de serviços de telecomunicação, o que, segundo os especialistas, torna o sistema ainda mais vulnerável a abusos e espionagem.
O caso amplia o debate sobre segurança digital, soberania nacional e o uso ético de tecnologias de vigilância, e deve gerar desdobramentos políticos e jurídicos nas próximas semanas. O STF seguirá conduzindo as investigações sobre a possível existência de uma estrutura paralela de inteligência dentro do governo federal à época.
Com informações do Portal Metro1.