As organizações Sleeping Giants Brasil, Artigo 19 e CTRL+Z protocolaram uma representação no Ministério Público Eleitoral (MPE) para investigar um possível favorecimento algorítmico ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) no Instagram.
O levantamento analisou 300 Reels de 30 perfis de grande alcance. Os dez vídeos do parlamentar somaram 410,5 milhões de visualizações, quase três vezes o total de 137,3 milhões registrado pelos 90 vídeos de outros nove deputados federais.
Com cerca de 23 milhões de seguidores, Nikolas alcançou uma mediana de 38,25 milhões de visualizações por Reel, superando a de celebridades internacionais como Selena Gomez, Kylie Jenner, Justin Bieber, Kim Kardashian e Beyoncé. Entre os 30 perfis analisados, o deputado ficou atrás apenas dos jogadores Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
Outro dado destacado é que os dez vídeos examinados superaram a base de seguidores do parlamentar. No conjunto da amostra, apenas 23 dos 300 Reels ultrapassaram o número de seguidores das respectivas contas, sendo dez deles publicados por Nikolas.
A taxa de visualizações por seguidor do deputado chegou a 166,3%, índice muito superior às medianas observadas entre os demais parlamentares, os maiores perfis brasileiros e as grandes contas internacionais.
Paralelamente à representação, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a Meta informe, em 48 horas, quais medidas foram aplicadas ao perfil do deputado desde 16 de agosto de 2026.
As organizações também pedem que a empresa forneça o histórico de distribuição das publicações desde janeiro de 2026, incluindo métricas por vídeo, fontes de tráfego, eventuais impulsionamentos pagos e possíveis intervenções humanas ou mecanismos extraordinários de recomendação.
O estudo, porém, ressalta que as visualizações públicas não correspondem necessariamente ao número de pessoas únicas alcançadas e não comprovam, isoladamente, favorecimento pela plataforma.
Entre as hipóteses levantadas estão o engajamento orgânico, o compartilhamento dos vídeos em outros canais, a publicidade paga e um possível privilégio no sistema de recomendação do Instagram.
A representação questiona se a distribuição dos conteúdos é compatível com as regras eleitorais estabelecidas pelo TSE, especialmente as resoluções nº 23.610/2019 e nº 23.732/2024. As entidades também mencionam o anúncio feito pela Meta, em 2024, de que deixaria de recomendar conteúdo político a usuários que não seguissem os perfis responsáveis pelas publicações.
Para Humberto Ribeiro, diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil, é necessário avaliar se um eventual privilégio algorítmico comprometeu a igualdade de condições entre candidatos.
“Um dos princípios que regem o processo eleitoral é a paridade de armas. Se o Nikolas possuiu algum grau de privilégio, como isso pode ter afetado as eleições proporcionais em MG?”, questionou.
Ribeiro também destacou a necessidade de apurar possíveis efeitos sobre outros candidatos eleitos. “Ele elegeu outros 13 deputados. E a gente tem indícios para que o MPE faça uma investigação para entendermos o que aconteceu”, afirmou.
Procurada para comentar o estudo e a representação, a Meta informou que não vai se manifestar sobre o caso.
O processo segue sob análise do Ministério Público Eleitoral, que avaliará as medidas cabíveis e a necessidade de preservar os dados técnicos da plataforma.