A confirmação do El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aumenta a preocupação do setor sucroenergético com os impactos do clima sobre os canaviais.
O fenômeno pode provocar chuvas irregulares, alternando períodos de excesso de precipitação, seca prolongada e temperaturas elevadas. Essas condições podem afetar o rendimento da cultura e reduzir o Açúcar Total Recuperável (ATR).
Os efeitos variam conforme a região produtora. Onde houver excesso de chuva, a lixiviação pode carregar nutrientes para camadas mais profundas do solo, reduzindo sua disponibilidade para as raízes.
Já nas áreas de estiagem, a falta de água limita o desenvolvimento das plantas e intensifica o estresse climático.
"Nas regiões que sofrerem com o excesso de chuva, a lixiviação tende a se intensificar. Nas áreas afetadas pela seca, porém, pode ocorrer perda severa de produtividade e de ATR, agravada pelo estresse oxidativo", explica Victor Hugo de Faria Guedes, engenheiro agrônomo e desenvolvedor de mercado da Biotrop.
A combinação de déficit hídrico e calor provoca desequilíbrio na produção de espécies reativas de oxigênio (EROs). Em excesso, essas moléculas podem danificar estruturas celulares e prejudicar a fotossíntese.
Para enfrentar essas condições, a cana direciona parte de sua energia para mecanismos de defesa. Com isso, podem diminuir o crescimento, a produção de biomassa e o acúmulo de sacarose nos colmos.
O impacto chega à indústria com a redução do ATR, indicador diretamente relacionado à quantidade de açúcar que pode ser extraída da matéria-prima.
A queda do ATR pode significar menor remuneração para o produtor e menor eficiência para as usinas, que precisam processar mais cana para obter o mesmo volume de açúcar ou etanol.
A estiagem também pode prejudicar o desenvolvimento dos colmos, reduzir a longevidade do canavial e afetar o desempenho das safras seguintes.
Por isso, o planejamento antecipado do manejo ganha importância para fortalecer as plantas, melhorar o aproveitamento da água e reduzir perdas.
Entre as estratégias utilizadas para aumentar a tolerância da cultura aos estresses abióticos está o uso de bioinsumos.
Essas tecnologias podem atuar no desenvolvimento do sistema radicular, no equilíbrio celular e na atividade de enzimas antioxidantes, ajudando a planta a manter seu funcionamento durante períodos de adversidade climática.
A Biotrop apresenta o Bioasis Power como um ativador microbiológico voltado ao enfrentamento de condições climáticas adversas.
Segundo Guedes, a tecnologia pode estimular o sistema radicular, favorecer a manutenção do turgor celular e aumentar a atividade de enzimas antioxidantes.
"Com um bom planejamento de manejo e a aplicação de soluções adequadas, é possível atravessar o período de seca causado pelo El Niño mitigando seus efeitos", afirma Guedes.
Um sistema radicular mais desenvolvido permite que a cana explore maior volume de solo em busca de água e nutrientes, característica importante durante a estiagem.
O uso de bioinsumos, porém, não elimina os riscos climáticos nem substitui outras práticas agronômicas.
A estratégia deve envolver fertilidade do solo, nutrição equilibrada, controle de plantas daninhas, conservação da umidade e escolha adequada do momento de aplicação.
O acompanhamento das previsões meteorológicas também permite antecipar decisões e ajustar o manejo antes que o déficit hídrico alcance níveis críticos.
Com a maior ocorrência de eventos extremos, o planejamento e as tecnologias voltadas à resiliência das plantas podem ganhar espaço na produção de açúcar e etanol.
Da redação do 40 Graus.