Em entrevista recente, o senador Flávio Bolsonaro optou por reduzir o debate político a uma metáfora automotiva: comparou o presidente da República a um “Opala velho”, vencido pelo tempo. A imagem, embora chamativa, diz menos sobre o presidente do que sobre a estratégia de quem a utiliza. Quando o discurso abandona o campo das ideias e se ancora no deboche, o que se revela não é força política, mas escassez de argumentos.
O Opala, aliás, lançado em 1968, atravessou décadas como símbolo de robustez, luxo e resistência. Talvez não tenha sido a melhor escolha metafórica para quem pretendia transmitir obsolescência. Há carros antigos que envelhecem mal; outros se tornam clássicos. A história costuma decidir.
Ao avançar da metáfora para a caricatura — picanha “cheirando podre”, cerveja “choca”, presidente “desconectado” da tecnologia — o senador reforça um padrão já conhecido do bolsonarismo: a substituição do debate político por frases de efeito, memes e provocações.
Curiosamente, o mesmo campo político que acusa adversários de viverem em “realidades paralelas” construiu sua força recente a partir de vídeos fora de contexto, montagens e narrativas simplificadas, amplificadas à exaustão nas redes sociais. A crítica às redes, nesse caso, soa menos como análise e mais como projeção.
A ironia maior, no entanto, não está nas comparações feitas, mas no contexto em que são feitas. Enquanto o presidente criticado exerce o cargo, governa, circula institucionalmente e enfrenta o desgaste natural do poder, o ex-presidente Jair Bolsonaro — pai do senador — vive uma realidade marcada por sucessivas internações, cirurgias decorrentes do atentado que sofreu em 2018 e uma extensa lista de investigações e problemas judiciais - condenado e preso na Papudinha.
Nada disso é motivo de comemoração ou escárnio. Mas é inevitável perceber a contradição: o mesmo grupo político que sempre demonstrou desprezo por pautas humanitárias hoje recorre ao discurso da compaixão, da fragilidade e do tratamento diferenciado quando a situação atinge os seus - Bolsonaro pede prisão domiciliar - que seus familiares, amigos e defensores chamam de humanitária.
A pergunta que se impõe é simples: atacar, ridicularizar e desumanizar o adversário ainda é uma estratégia eficaz para crescer politicamente? A experiência recente sugere que não. O excesso de agressividade verbal, longe de convencer, costuma afastar eleitores moderados e reforçar a percepção de intolerância.
O bolsonarismo cresceu falando “contra tudo e contra todos”. Hoje, colhe os efeitos desse método: isolamento político, desgaste de imagem e dificuldade de reconstruir pontes. A retórica que um dia mobilizou multidões agora parece girar em círculos, repetindo bordões para uma plateia cada vez mais restrita.
A política brasileira atravessa um momento que exige seriedade, responsabilidade e, sobretudo, propostas. Reduzir o presidente da República a metáforas depreciativas pode render manchetes e aplausos momentâneos, mas dificilmente constrói um projeto de país.
No fim das contas, a ironia maior não está no “Opala velho”, na “picanha” ou na “cerveja”. Está no fato de que quem faz da provocação o centro do discurso acaba prisioneiro dela — e descobre, tarde demais, que palavras lançadas ao vento costumam encontrar o caminho de volta.
Da redação do 40 Graus.