Por Danilo Henrique...
Durante a campanha eleitoral de 2024, quando fui candidato a prefeito de Barreiras, apresentei uma proposta que, para alguns, parecia ousada demais para a realidade da nossa cidade: a implantação de duas linhas de ônibus com tarifa zero como projeto-piloto para transformar, de forma definitiva, o nosso sistema de transporte público.
A ideia era simples, concreta e tecnicamente viável. Propus uma linha ligando o bairro Morada da Lua, passando pelo Centro Histórico, até a Vila Amorim. A segunda conectaria o Residencial São Francisco ao Centro de Abastecimento, seguindo até a Vila Rica. Duas rotas estratégicas, atravessando áreas populosas, comerciais e de serviços essenciais.
Esse projeto experimental seria operado por dois ônibus elétricos articulados, com ar-condicionado e tarifa zero. Não se tratava de uma ideia vazia, mas do início de um modelo maior: construir, gradualmente, um sistema que culminasse na gratuidade total do transporte público em Barreiras.
Ainda em 2024, por acreditar que política pública precisa ser sustentada por dados, encomendei um estudo técnico para apontar soluções reais para a mobilidade urbana do município. O diagnóstico confirmou aquilo que eu suspeitava: melhorar o serviço e avançar para a gratuidade não era apenas possível, mas necessário e conectado com as demandas atuais das cidades.
Não por acaso, no ano seguinte, o tema ganhou projeção nacional quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, passou a defender a política de Tarifa Zero como uma agenda moderna de mobilidade urbana, justiça social e desenvolvimento sustentável. Ou seja, aquilo que propusemos em Barreiras estava — e continua — em sintonia com o debate mais avançado do país.
De acordo com as estimativas do estudo, implantar a Tarifa Zero em Barreiras teria um custo anual de aproximadamente R$ 24 milhões, o que equivale a cerca de R$ 0,38 por habitante dia. Em termos orçamentários, isso representa cerca de 2,5% do orçamento anual do município. Estamos falando, portanto, de um investimento plenamente administrável para uma política com impactos profundos e duradouros.
Hoje, 144 cidades brasileiras já adotaram a Tarifa Zero. Não é mais uma utopia, é uma realidade em municípios pequenos, médios e até em grandes centros urbanos.
Um exemplo importante é o de Ibirité, em Minas Gerais. A cidade arrecada cerca de R$ 300 milhões a menos que Barreiras e possui uma população um pouco maior. Ibirité tem aproximadamente 178 mil habitantes, enquanto Barreiras, segundo estimativa do censo, conta com cerca de 172 mil — ou seja, seis mil habitantes a menos. Ainda assim, Ibirité oferece transporte público totalmente gratuito à sua população.
Infelizmente, enquanto diversas cidades avançam, Barreiras segue na contramão. O então prefeito Zito Barbosa recusou, em 2024, a proposta de eletrificação da frota de ônibus, rejeitando a modernização do sistema. Mais recentemente, durante o debate eleitoral na TV Oeste, o candidato Otoniel Teixeira afirmou que também não faria a substituição dos veículos caso fosse eleito. Para piorar, no início deste ano, a gestão autorizou aumento no valor da tarifa, sem que se exigisse sequer qualquer melhoria na qualidade do serviço prestado à população. Ou seja: paga-se mais por um transporte que continua caro, precário e ineficiente.
Os benefícios da gratuidade vão muito além da mobilidade. A Tarifa Zero é uma política de justiça social, porque garante que trabalhadores, estudantes, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade possam se deslocar sem que o custo do transporte consuma parte significativa de sua renda. É também uma medida de sustentabilidade ambiental e urbana, ao reduzir o uso excessivo de veículos particulares e as emissões de poluentes.
Há impactos diretos na economia local quando, por exemplo, as pessoas podem circular pela cidade com facilidade e passam a frequentar mais o comércio, acessando serviços, participando da vida cultural e movimentando os bairros. O transporte gratuito é um indutor de dinamismo econômico.
Na saúde pública, os ganhos são evidentes. O acesso facilitado aos postos, hospitais e unidades especializadas melhora a prevenção e o tratamento. Além disso, há um efeito potencial na redução de acidentes de trânsito, especialmente envolvendo motociclistas — um dos principais fatores de pressão sobre os gastos do sistema de saúde municipal.
Barreiras precisa escolher se continuará tratando o transporte como um problema em que a população paga a conta ou se passará a enxergá-lo como uma política estratégica de desenvolvimento urbano.
Por isso, estamos preparando um seminário aberto com trabalhadores, estudantes, usuários do transporte, lideranças políticas e técnicos da área. Será um espaço de diálogo, escuta e construção coletiva sobre os caminhos para um novo modelo de mobilidade em Barreiras.
Por Danilo Henrique.