Política Bolsonaro
“Do ‘mimimi’ à cela climatizada: quando o discurso de Bolsonaro encontra a própria prisão”
Da retórica do “é só não cometer crime” às queixas sobre o ar-condicionado: a prisão de Jair Bolsonaro expõe contradições entre discurso, poder e realidade do sistema prisional brasileiro.
08/01/2026 20h18 Atualizada há 4 meses atrás
Por: F. Silva Fonte: Por Navalhada

Quando o “mimimi” bate à porta

Condenado em última instância pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de prisão, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro cumpre pena sob rígido controle do Estado. Desde a prisão, familiares, aliados políticos e apoiadores passaram a denunciar supostas violações de direitos, alegando condições inadequadas, problemas de saúde e até tortura psicológica.

O principal alvo das queixas, curiosamente, tem sido o barulho do ar-condicionado da cela onde Bolsonaro permanece sozinho.

O contraste é inevitável. Antes da prisão, Bolsonaro foi um crítico ferrenho de qualquer debate sobre direitos humanos no sistema prisional. Repetia, com frequência, que preso não deveria reclamar de comida, de cela ou de tratamento. “É só não cometer crime”, dizia. Quem não quisesse “comer mal”, “dormir mal” ou sofrer, que não fosse preso. O discurso do “mimimi” virou marca registrada.

Agora, o mesmo argumento retorna — mas em sentido oposto.

Enquanto milhões de presos no Brasil dividem celas superlotadas, sem ventilação adequada, água potável ou atendimento médico contínuo, Bolsonaro encontra-se isolado, em ambiente controlado, com assistência médica e climatização. Ainda assim, a família fala em solitária, fala em tortura, fala em sofrimento extremo.

Tortura, porém, é um conceito jurídico e histórico pesado demais para ser banalizado. Não se confunde com desconforto, isolamento legal ou cumprimento de pena dentro das normas do Estado Democrático de Direito.

A tortura brasileira tem memória: paus-de-arara, choques elétricos, desaparecimentos forçados, assassinatos. Comparar o barulho de um ar-condicionado a isso é, no mínimo, um desrespeito à história.

É fato que Bolsonaro enfrenta problemas de saúde. Passou por diversas cirurgias desde o atentado de 2018. Mas também é fato que o sistema prisional brasileiro abriga milhares de pessoas doentes — cardíacos, diabéticos, pacientes com câncer, transtornos mentais — sem que isso provoque comoção nacional ou pronunciamentos indignados nas redes sociais.

Durante a pandemia da Covid-19, o então presidente ironizava a falta de ar de pacientes, imitando gestos de asfixia e minimizando mortes. O Brasil perdeu centenas de milhares de vidas. Hoje, o incômodo com o ar-condicionado vira pauta política.

Há também a ironia do passado recente. Carla Zambelli, hoje presa na Itália, chegou a pedir publicamente — em tom sarcástico — que a esposa pudesse passar o Natal com Lula “na prisão”, quando o petista ainda estava detido. Agora, surgem relatos de que Zambelli sofre agressões periódicas no sistema prisional estrangeiro. O jogo virou, como dizem nas redes.

Diante disso, a sátira se escreve quase sozinha. Se o argumento for levado ao limite, por que não permitir que Bolsonaro durma com a esposa Michelle? Bastaria, dirão os mais irônicos, prendê-la também. O absurdo da frase revela exatamente o absurdo do debate.

O que está em jogo não é vingança, nem espetáculo. É coerência. O Estado deve garantir direitos mínimos a qualquer preso — inclusive a Jair Bolsonaro. Mas também deve ser lembrado que esses direitos nunca foram prioridade no discurso de quem hoje os reivindica com tanta veemência.

A prisão não é confortável. Nunca foi. Nunca será. E talvez a maior lição deste episódio seja simples e dura: o “mimimi” só incomoda quando é o do outro. Quando a cela se fecha, o discurso muda.

Por Navalhada/Barreiras 40 Graus.