Com o crescimento da população mundial e o aumento das preocupações com a segurança alimentar, pesquisadores brasileiros intensificam a busca por alimentos nutritivos e sustentáveis. Um estudo conduzido pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), revelou que o feijão-guandu (Cajanus cajan) pode ser uma alternativa promissora para o consumo humano, combinando qualidade nutricional, boa aceitação sensorial e viabilidade agrícola.
A pesquisa, liderada pela pesquisadora Ana Rita Nogueira, contou com a colaboração do químico Marcelo Tozo, responsável por uma dissertação de mestrado na UFSCar. O estudo avaliou o conteúdo de proteínas e minerais essenciais em duas variedades de feijão-guandu, comparando seus valores com os tradicionais feijões carioca e preto.
Os testes consideraram amostras cruas e cozidas em diferentes estágios de maturação. Embora o cozimento tenha reduzido o teor de minerais como o fósforo, o teor de proteína total permaneceu semelhante ao de outras leguminosas. A disponibilidade de minerais variou entre 0,8% e 68%, sendo menor em grãos mais maduros, enquanto o perfil proteico apresentou alta concentração de aminoácidos essenciais, destacando o guandu como excelente fonte de proteína vegetal.
Sob coordenação da pesquisadora Renata Tieko Nassu, foram realizados testes tecnológicos e sensoriais que reforçaram o potencial do guandu para o mercado consumidor. As variedades estudadas demonstraram:
Boa capacidade de hidratação;
Tempo de cozimento reduzido;
Atributos sensoriais positivos, como maciez e sabor suave, similares aos dos feijões convencionais.
A aceitação sensorial foi positiva, com alta taxa de aprovação entre os consumidores. Dos participantes dos testes de mercado, 98% declararam consumir feijão regularmente, 89% já conheciam o guandu, e a maioria (63%) era do sexo masculino, com idades entre 36 e 45 anos.
Segundo Ana Rita Nogueira, o guandu pode funcionar como um suplemento alimentar viável, principalmente em regiões com menos acesso a alimentos industrializados ou fortificados. Uma porção de 100 gramas do grão cozido pode contribuir de forma significativa para a Ingestão Diária Recomendada (IDR) de minerais como magnésio e fósforo.
Embora o guandu apresente teores menores de minerais em comparação aos feijões carioca e preto geneticamente melhorados, todas as leguminosas analisadas fornecem entre 33% e 39% da IDR de proteínas, o que reforça sua importância na nutrição humana.
O desenvolvimento de cultivares de guandu adaptadas para o consumo humano representa um passo importante para a diversificação alimentar e o fortalecimento da agricultura sustentável no Brasil. A planta se destaca pela rusticidade, capacidade de crescer em solos pobres e resistência a longos períodos de seca, tornando-se ideal para a produção em regiões vulneráveis.
De acordo com o pesquisador Frederico de Pina Matta, o sistema radicular do guandu contribui para a biodescompactação do solo e promove resiliência climática, características valiosas diante de eventos extremos e mudanças climáticas.
Embora ainda pouco presente nas refeições diárias do brasileiro, o feijão-guandu reúne características que indicam seu potencial para diversificar a dieta nacional, complementar nutrientes essenciais e fortalecer a produção rural sustentável.
O estudo da Embrapa e da UFSCar coloca o guandu no centro de uma agenda voltada à segurança alimentar, à valorização da produção local e à ampliação das opções saudáveis e acessíveis para a população.
Fonte: Portal do Agronegócio.