Os caciques da oposição na Bahia já não escondem o temor de que a postura do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), acabe por acelerar a debandada de prefeitos que integram o bloco liderado por ele. Nos bastidores, o clima é de frustração e desconfiança. Políticos que orbitam o núcleo oposicionista revelam que a dificuldade de acesso a Neto e seu comportamento indiferente com aliados do interior têm sido os principais fatores para o esfacelamento da base construída ao longo de anos.
Um integrante do alto escalão do União Brasil, ligado diretamente a Neto, foi direto ao ponto:
"Não são poucas as reclamações que ouço de que Neto tem sido indiferente em relação a prefeitos, parlamentares e dirigentes de partidos do nosso grupo. Passo tudo adiante, mas parece que entra por um ouvido e sai por outro. O que mais se ouve são queixas sobre a falta de retorno, ausência de diálogo, e até ingratidão", desabafou.
A avaliação entre aliados é que o ex-prefeito da capital baiana perdeu o 'tato político'. Se antes sua figura representava um polo de articulação e força, hoje é vista como distanciada e desinteressada — uma postura que contrasta com a do governador Jerônimo Rodrigues (PT), que tem sido descrito como mais presente e receptivo.
A crise se arrasta desde 2022, quando Neto foi derrotado por Jerônimo na disputa pelo Palácio de Ondina. O que era apenas um mal-estar, no entanto, transformou-se em perda efetiva de apoio a partir da preparação para a sucessão municipal de 2024.
Prefeitos como Nal Azevedo (Avante), de Guanambi; Mário Galinho (PSD), de Paulo Afonso; e Eduardo Hagge (MDB), de Itapetinga, foram alguns dos primeiros a ensaiar um distanciamento do campo oposicionista.
Outro nome de peso a sinalizar aproximação com o governo foi o prefeito de Jequié, Zé Cocá (PP), reeleito com mais de 90% dos votos. Segundo aliados, Cocá se sentiu ignorado por ACM Neto e, diante do vácuo de liderança, optou por buscar diálogo com quem efetivamente ocupa o poder. Movimento semelhante foi feito por Bira da Barraca (União Brasil), de Mata de São João, que surpreendeu ao abrir conversas com a base governista.
O sinal mais claro de desgaste veio do oeste baiano. O prefeito de Luís Eduardo Magalhães, Júnior Marabá (PP), não poupou palavras em recente entrevista à Rádio Baiana FM:
"Você nunca se sente reconhecido por ACM Neto. Entreguei 70% dos votos para ele em 2022 e nunca fui sequer chamado para conversar. O governo do estado, ao contrário, está presente, escuta, acolhe...", disparou.
O desabafo de Marabá foi endossado pelo deputado estadual Paulo Câmara (PSDB), um dos mais antigos aliados de Neto.
"Você manda uma mensagem, ele não responde. Isso não é só comigo, é com todo mundo. É da personalidade dele. O prefeito Júnior Marabá está certo em tudo que disse. Eu vi o esforço dele na campanha, e o mínimo que se esperava era um reconhecimento", comentou o parlamentar, reforçando a tese de que Neto tem falhado em construir pontes com sua própria base.
Nem mesmo os laços de sangue livraram ACM Neto das críticas. Um parente próximo, que carrega o mesmo nome do falecido deputado Luís Eduardo Magalhães, foi categórico:
"A Bahia sente falta de líderes como ACM, o original, e Luís Eduardo, que sabiam agregar, dividir espaço e ouvir. Hoje, somos mobilizados para atacar aliados enquanto sequer temos espaço para uma ligação ou um encontro na agenda", disse, em tom de lamento e cobrança.
Enquanto ACM Neto se afasta, o governador Jerônimo Rodrigues avança. Com um estilo mais acolhedor e foco no diálogo com prefeitos e lideranças regionais, o petista tem conseguido preencher o vácuo deixado pela oposição. Neto, que já foi visto como a principal liderança da direita no estado, hoje enfrenta uma realidade dura: a de ser apontado como um dos principais responsáveis pelo enfraquecimento do seu próprio grupo.
Se mantiver a postura hermética e distante que vem adotando, ACM Neto corre o risco de não apenas ver sua base política se esfarelar, mas também de inviabilizar uma eventual candidatura futura.
Sem grupo, sem aliados fiéis e sem capilaridade no interior — onde se decidem eleições na Bahia —, o ex-prefeito pode se ver isolado em um cenário político que exige diálogo, articulação e presença.
Caso não reveja urgentemente sua conduta, corre o sério risco de, em 2026, não ter sequer um palanque onde subir, tampouco um grupo disposto a ir às ruas por ele.
Com informações do Metro1.