Jair Messias Bolsonaro, "o Mito", o ex-presidente que já foi considerado por seus apoiadores como um líder firme e intransigente, protagonizou nesta semana uma cena que simboliza a derrocada de sua trajetória política. No aeroporto de Brasília, ele foi flagrado lamentando em tom choroso a impossibilidade de viajar para os Estados Unidos e participar da posse de Donald Trump, seu aliado ideológico, que retorna à presidência norte-americana.
O episódio, que beira o tragicômico, contrasta fortemente com o personagem construído durante o seu mandato presidencial. Bolsonaro, que em outros tempos vociferava contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e prometia não cumprir ordens judiciais, agora se vê implorando à Justiça brasileira para evitar o uso de uma tornozeleira eletrônica – um símbolo da supervisão que ele tanto desdenhou.
Os tempos mudaram. A figura que outrora inflamava multidões com discursos de bravata parece ter sido reduzida a um ex-presidente acuado, refém das consequências de suas ações. O choro público de Bolsonaro é um reflexo simbólico de sua perda de poder, mas também de uma inversão de papéis: aquele que ameaçava desafiar as instituições agora suplica por clemência ao “Xandão”, como é popularmente conhecido o ministro Alexandre de Moraes, seu principal adversário jurídico.
Se Bolsonaro foi o líder que desafiou as estruturas democráticas, ele agora parece ser o exemplo mais evidente de que essas mesmas estruturas resistiram. A Justiça brasileira, com todas as suas imperfeições, tem demonstrado que ninguém está acima da lei.
Enquanto Bolsonaro ficava retido no Brasil, sua esposa, Michelle Bolsonaro, embarcou tranquilamente para os Estados Unidos, destacando a diferença de sua situação jurídica. Michelle não enfrenta acusações formais e pôde viajar sem impedimentos, reforçando o contraste entre o casal. Para os críticos, o episódio é emblemático: enquanto Jair clama por indulgência, Michelle segue sua vida, aparentemente alheia ao declínio político do marido.
Nos corredores do aeroporto e nas redes sociais, a cena não passou despercebida. Comparações com um adolescente contrariado por perder uma festa se espalharam rapidamente. A hashtag #ChororôDoMito figurou entre os assuntos mais comentados, enquanto internautas faziam piada sobre o futuro político do ex-presidente.
O episódio não é apenas um meme; é um marco. O homem que personificou um movimento político forte, que influenciou milhões e polarizou o Brasil, agora é retratado como um líder caído, sem a força retórica ou institucional para enfrentar seus desafios.
A cena de Bolsonaro chorando no aeroporto é mais do que um momento isolado. É um retrato da fragilidade de líderes que acreditam estar acima da lei e que constroem sua popularidade com base em retóricas inflamadas, mas sem sustento prático ou ético. A política brasileira, marcada por ciclos de ascensão e queda, ganha mais um exemplo de que o poder, quando mal administrado, é efêmero.
A pergunta que fica não é apenas sobre o futuro de Bolsonaro, mas sobre o futuro de seus apoiadores e da base política que ele construiu. Sem o "mito" que prometia enfrentar o sistema, o que resta é um líder acuado e uma lição clara: a democracia, mesmo imperfeita, tem seus mecanismos de proteção.
Talvez seja hora de Bolsonaro se perguntar não o que ele pode pedir ao "Xandão", mas o que ele pode fazer para reescrever sua história – antes que o epitáfio político se torne definitivo.
Da Redação do 40 Graus.